Chile e Bolívia deram um primeiro passo rumo a uma interconexão elétrica. Os presidentes José Antonio Kast e Rodrigo Paz Pereira assinaram em 16 de outubro, em La Paz, uma declaração conjunta de integração energética que cria um comitê técnico binacional e abre caminho para avaliar uma futura conexão entre os sistemas elétricos dos dois países, segundo a Revista Electricidad e a Electrominería.
A assinatura ocorreu durante a visita de Kast à Bolívia e contou com a ministra de Energia do Chile, Ximena Rincón. O texto é uma declaração política: não define valores, capacidades nem prazos. Esses detalhes ficarão para um roteiro que o novo comitê deverá preparar.
O que diz a declaração de integração energética
Segundo o texto citado pelos dois veículos, os governos concordaram em *“reafirmar a vontade política de ambos os governos de avançar no desenvolvimento da cooperação e da integração energética”*. Os compromissos concretos são:
- Diálogo bilateral permanente para fortalecer a segurança e a sustentabilidade dos sistemas elétricos dos dois países.
- Avaliação de uma futura interconexão elétrica entre Chile e Bolívia.
- Comitê Técnico Binacional encarregado de um roteiro com possíveis etapas, ações e prazos, a serem acordados depois.
- Marco regional: a declaração se insere no Sistema de Interconexão Elétrica Andina (SINEA) e em seu roteiro 2020-2030, que promove um corredor elétrico regional e a harmonização regulatória.
*“Concretizar uma integração energética poderia mudar a cara dos nossos países”*, disse a ministra Rincón, que acrescentou que o acordo *“está alinhado com os objetivos de diversificação e complementaridade da matriz energética dos dois países”*.

O que significaria uma interconexão elétrica com a Bolívia
Uma interconexão permite vender e comprar eletricidade entre países. Para o Chile, que tem excedentes solares durante o dia e já precisou cortar geração renovável por falta de transmissão, uma conexão regional abre a possibilidade de exportar esses excedentes. Mostramos o tamanho do parque solar chileno em energia solar no Chile em números. Para a Bolívia, cuja matriz depende muito do gás natural, a conexão poderia somar energia renovável e respaldo.
Nenhum dos textos publicados traz traçado, capacidade em megawatts ou investimento estimado. Também não menciona gás, lítio nem hidrogênio. Separadamente, o governo boliviano disse que quer acelerar o transporte de combustíveis de Arica até Sica Sica, para reduzir os atrasos causados pelos bloqueios de estradas.
A outra interconexão: EnorChile apresenta uma linha até o Peru
Em paralelo, a integração com o Peru deu um passo mais concreto. A EnorChile Transmisión apresentou ao Sistema de Avaliação de Impacto Ambiental (SEIA), por meio de uma Declaração de Impacto Ambiental, a linha de 2×220 kV Los Héroes–Parinacota, trecho chileno, que permitiria importar e exportar eletricidade entre o Sistema Elétrico Nacional do Chile e o sistema peruano, segundo a Revista Electricidad.
| Projeto Chile-Peru | Dado |
|---|---|
| Nome | Linha elétrica 2×220 kV Los Héroes–Parinacota, trecho Chile |
| Titular | EnorChile Transmisión |
| Investimento | US$ 30 milhões |
| Extensão no Chile | Cerca de 22 km (21,87 km até a fronteira) |
| Capacidade máxima | 250 MVA |
| Traçado | Subestação Parinacota (Arica) – fronteira – subestação Los Héroes (Tacna) |
| Início previsto das obras | Fevereiro de 2028 |
| Vida útil estimada | 30 anos |
A linha será majoritariamente aérea, com um trecho subterrâneo, e inclui uma subestação conversora. Os documentos do projeto aparecem datados de 13 de outubro de 2026 no SEIA.

Interconexão elétrica: o estado da integração regional
| Iniciativa | Situação em outubro de 2026 | Fonte |
|---|---|---|
| Chile-Bolívia | Declaração política e comitê técnico; sem traçado nem prazos | Revista Electricidad / Electrominería |
| Chile-Peru (EnorChile) | Em avaliação ambiental; obras a partir de 2028 | Revista Electricidad |
| Roteiro SINEA 2020-2030 | Marco regional andino de referência | Declaração conjunta |
A integração chega num momento de mudanças rápidas na rede chilena, com mais energia solar e mais armazenamento do que nunca. Uma rede regional ajudaria a aproveitar essa energia, mas qualquer linha internacional exige acordos regulatórios, financiamento e anos de construção. Internamente, o regulador já prioriza reforços, como as obras urgentes de transmissão aprovadas para 2026.
O precedente: a linha com a Argentina
O Chile já tem experiência com uma interconexão internacional. A linha InterAndes, de 345 kV e cerca de 409 km, une a subestação Andes, na Região de Antofagasta, à subestação Cobos, em Salta. Foi construída por volta do ano 2000 para trazer energia de uma termelétrica argentina e ficou fora de serviço por anos. Em novembro de 2022 foi reativada com um esquema de intercâmbios interrompíveis: o Chile podia exportar até 80 MW de dia e a Argentina enviar até 200 MW à noite, segundo a Bloomberg Línea.
Esse modelo mostra para que serve uma interconexão num país solar: exportar excedentes renováveis ao meio-dia, quando sobram, e importar energia à noite para deslocar geração a diesel. Uma conexão com a Bolívia poderia seguir uma lógica parecida, embora nada disso esteja definido na declaração.
| Interconexão | Tensão e extensão | Situação |
|---|---|---|
| Chile-Argentina (InterAndes) | 345 kV, cerca de 409 km | Reativada em 2022 com intercâmbios interrompíveis |
| Chile-Peru (EnorChile) | 2×220 kV, cerca de 22 km no Chile | Em avaliação ambiental |
| Chile-Bolívia | Indefinida | Declaração e comitê técnico (outubro de 2026) |
O que falta para existir uma interconexão elétrica com a Bolívia
- Roteiro do comitê binacional: etapas, ações e prazos, que segundo a declaração devem ser acordados entre as partes.
- Estudos técnicos: traçado, capacidade e se os sistemas operariam sincronizados ou isolados.
- Acordo regulatório: regras para comprar e vender energia entre os dois mercados.
- Financiamento e avaliação ambiental: no Chile, qualquer linha de transmissão desse porte precisa passar pelo SEIA.
O lítio, outro tema bilateral de interesse, não aparece na declaração. A Bolívia tem 23 milhões de toneladas em recursos de lítio identificados, mas o USGS não lhe atribui reservas provadas, ao contrário do Chile, que lidera o ranking mundial de reservas. O avanço do Chile em transmissão, e o gargalo que enfrenta, aparece nos 12.188 MW de projetos aguardando conexão.
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Ver formatos publicitáriosPerguntas frequentes
Chile e Bolívia já têm uma interconexão elétrica?
Não. A declaração de 16 de outubro de 2026 apenas compromete os países a avaliar uma interconexão futura e a criar um comitê técnico binacional que prepare um roteiro.
Quanto custará a interconexão com a Bolívia?
Não há valor. A declaração não menciona investimento, capacidade nem traçado.
O que é o projeto da EnorChile até o Peru?
Uma linha de 2×220 kV e cerca de 22 km em território chileno, entre a subestação Parinacota (Arica) e a fronteira, com investimento de US$ 30 milhões e 250 MVA de capacidade. Está em avaliação ambiental.



