A transmissão elétrica do Chile não dá conta de transportar toda a energia renovável que o país produz. Essa é a conclusão central do relatório de energia de outubro da consultoria Deloitte, publicado nesta segunda pelo La Tercera: “a infraestrutura de transmissão não suporta a quantidade de energia atualmente disponível no sistema”, diz o documento.
O número que resume o problema é o curtailment (vertimento): a energia renovável que as usinas poderiam produzir, mas que o sistema não pôde usar nem transportar. Em 2025 chegou a 6.205 GWh, dos quais 71% vieram de usinas solares e 26% de parques eólicos, segundo o relatório. É energia limpa e barata que foi produzida, mas que ninguém pôde usar.
A transmissão elétrica no relatório da Deloitte: os números
O relatório da Deloitte cruza dados de curtailment, armazenamento, projetos novos e financiamento. Estes são os principais números:
| Indicador | Dado | Período |
|---|---|---|
| Curtailment de energia renovável | 6.205 GWh | 2025 |
| Participação solar no curtailment | 71% | 2025 |
| Participação eólica no curtailment | 26% | 2025 |
| Custo das baterias | ~US$ 70/kWh (de ~US$ 400 em 2016) | 2025 |
| Baterias (BESS) entre os projetos que entraram em operação | 1.697 MW de 3.314 MW | Janeiro a julho de 2026 |
| Projetos em testes (PES) | 61 projetos, 2.357 MW | Julho de 2026 |
| Projetos autorizados a operar (EO) | 7 projetos, 957 MW | Julho de 2026 |
| Financiamento bancário ao setor | US$ 16,516 bilhões | 2020 a 2025 |
O número de 6.205 GWh coincide com o informado pela Broker & Trader Energy Chile para 2025. A Associação Chilena de Energias Renováveis e Armazenamento (Acera) informou um número um pouco menor, de 6.084 GWh, porque cada fonte usa critérios diferentes para medir a energia desperdiçada.
Por que a transmissão elétrica não é suficiente
Segundo a Deloitte, o problema é que as linhas e, sobretudo, as subestações não têm capacidade suficiente para transportar a energia disponível. A oferta de geração cresceu mais rápido que a demanda: no norte, onde se concentram os parques solares, os preços spot ficam perto de zero durante as horas de sol.
Esse diagnóstico coincide com outros sinais do sistema. Hoje há 12.188 MW em projetos aguardando conexão, a maioria baterias, como explicamos em os projetos aguardando conexão à rede. A grande obra que deveria aliviar o congestionamento entre o norte e o centro, a linha Kimal-Lo Aguirre, ainda está em construção.

O que é o curtailment e por que cresce
Quando a rede não consegue levar a eletricidade até onde ela é consumida, o operador do sistema chileno, o Coordenador Elétrico Nacional, ordena que algumas usinas reduzam a produção. Essa energia se perde. O fenômeno cresce com cada parque solar conectado no norte sem que a transmissão cresça no mesmo ritmo.
As baterias como resposta parcial
A saída de curto prazo têm sido as baterias (BESS): carregam de dia, quando sobra energia solar barata, e a entregam à noite, normalmente entre 18h e 22h, quando os preços sobem. Segundo a Deloitte, o custo das baterias caiu de cerca de US$ 400 por kWh em 2016 para cerca de US$ 70 por kWh em 2025, 45% menos que em 2024.
Essa queda explica por que as baterias dominam os projetos novos. Entre janeiro e julho de 2026, os BESS somaram 1.697 MW dos 3.314 MW que entraram em operação, mais da metade. Entre os projetos em testes ou autorizados a operar, as baterias representam 51% e a solar, 27%. O Chile já passou de 3.000 MW em baterias, como contamos em o Chile supera 3.000 MW em BESS.
“Os BESS continuam sendo críticos para armazenar energia renovável e deslocá-la para as horas de maior demanda”, disse Nicolás Ramos, gerente de finanças corporativas e fusões e aquisições da Deloitte, segundo o La Tercera. As baterias, porém, não substituem as linhas: movem energia no tempo, não no espaço.
Quem financia as renováveis no Chile
O relatório também revisa quem empresta o dinheiro. Entre 2020 e 2025, os bancos concederam US$ 16,516 bilhões em financiamento a projetos do setor. O maior credor foi o japonês Sumitomo Mitsui Banking, com US$ 3,031 bilhões, seguido do francês BNP Paribas, com US$ 2,447 bilhões.
| Banco | País | Financiamento 2020-2025 |
|---|---|---|
| Sumitomo Mitsui Banking | Japão | US$ 3,031 bilhões |
| BNP Paribas | França | US$ 2,447 bilhões |
| Scotiabank (7º lugar) | Canadá | US$ 1,232 bilhão |
| Itaú Chile (8º lugar) | Chile | US$ 1,002 bilhão |
A Deloitte observa que os projetos com um contrato de fornecimento de longo prazo (PPA) têm menos restrições para se financiar, e que somar baterias a um projeto solar melhora o acesso ao crédito. Também alerta que há muitos projetos renováveis disputando poucos compradores, o que transfere o poder de negociação para a demanda.

O que vem para a transmissão elétrica
O diagnóstico da Deloitte chega em meio ao debate da reforma das redes elétricas. O Ministério de Energia apresentará em dezembro uma proposta conceitual para atualizar a regulação da distribuição e da transmissão, vigente há mais de 40 anos, como contamos em a reforma das redes elétricas. Estão em jogo como se planejam as novas linhas, quanto demoram para ser construídas e quem paga por elas.
Enquanto isso, os desenvolvedores se adaptam: quase todos os projetos solares novos que entram em avaliação ambiental incluem baterias desde o projeto. É o caso do parque solar Ceibo, de 250 MW em Vallenar, que obteve sua aprovação ambiental nesta semana com 42 bancos de baterias.
O que significa para os consumidores
Para uma família, o curtailment não aparece diretamente na conta, mas importa. A energia que se perde no norte é energia barata que não chega ao centro do país. As novas linhas e as baterias devem ajudar a aproveitá-la; enquanto isso, as contas de luz devem cair em 13 regiões a partir de janeiro de 2027 pelo fim de contratos de energia caros, segundo o relatório preliminar da Comissão Nacional de Energia (CNE).
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Ver formatos publicitáriosPerguntas frequentes
O que diz o relatório da Deloitte sobre a transmissão elétrica no Chile?
Que a infraestrutura de transmissão do Chile não suporta a quantidade de energia disponível e que o principal gargalo está nas subestações.
Quanta energia renovável se perdeu em 2025?
6.205 GWh de curtailment, segundo a Deloitte: 71% solar e 26% eólica. A Acera informou 6.084 GWh.
Quanto custam hoje as baterias?
Cerca de US$ 70 por kWh em 2025, contra cerca de US$ 400 em 2016, segundo o relatório.
Quais bancos mais financiam projetos de energia no Chile?
Sumitomo Mitsui Banking (US$ 3,031 bilhões) e BNP Paribas (US$ 2,447 bilhões) lideram entre 2020 e 2025.


