A Procuradoria Nacional Econômica (FNE) do Chile, órgão de defesa da concorrência, aprovou a compra da AES Corporation, matriz americana da AES Andes, uma das maiores geradoras do Chile, por um consórcio liderado pela Global Infrastructure Partners (GIP), da BlackRock, e pelo fundo EQT Infrastructure VI. A FNE concluiu que a operação “não é apta para reduzir substancialmente a concorrência nos segmentos analisados”, informou o Diario Financiero nesta quinta-feira, 22 de outubro.
A aprovação foi sem condições. A FNE analisou quatro negócios em que os compradores já têm investimentos no Chile: a geração elétrica, sobretudo renovável; a transmissão; o armazenamento com baterias (BESS) e os data centers. Em nenhum encontrou riscos para a livre concorrência.
A compra da AES: números da operação
A operação foi anunciada em 2 de março de 2026. O consórcio, que também inclui o fundo de pensão californiano CalPERS e a Autoridade de Investimentos do Catar, pagará US$ 15 por ação em dinheiro, o que avalia o patrimônio da AES em US$ 10,7 bilhões e a empresa inteira, com a dívida, em cerca de US$ 33,4 bilhões, segundo o anúncio da operação divulgado pelo escritório de advocacia Simpson Thacher.
| Dado | Número ou data |
|---|---|
| Preço por ação | US$ 15 em dinheiro |
| Valor do patrimônio | US$ 10,7 bilhões |
| Valor da empresa com dívida | Cerca de US$ 33,4 bilhões |
| Anúncio | 2 de março de 2026 |
| Notificação à FNE | 12 de junho de 2026 |
| Abertura da investigação (processo F479-2026) | 19 de agosto de 2026 |
| Aprovação da FNE | Informada em 22 de outubro de 2026 |
| Fechamento esperado | Fim de 2026 ou início de 2027 |
Fontes: anúncio da operação, Revista Electricidad e Diario Financiero.
Nos documentos da FNE, o comprador aparece como Global Infrastructure Management, LLC (GIM), a entidade que administra os fundos da GIP, adquirida pela BlackRock em 2024. A notificação foi apresentada pela Horizon Parent L.P. e pela Horizon Merger Sub Inc., veículos desses fundos, junto com a EQT Fund Management e a AES. A FNE declarou a notificação incompleta em 26 de junho e 28 de julho, e as partes a completaram em 13 de julho e 10 de agosto.
O que a FNE analisou na compra da AES Andes
A análise se concentrou nos negócios em que as carteiras dos compradores se cruzam com a da AES no Chile. Segundo o relatório da FNE citado pelo Diario Financiero, a GIM atua no país por meio da Atlas, da Chile Renovables e da Aligned Data Centers (Odata). A EQT está presente no setor elétrico com a Urbaser (KDM Energía) e a Zelestra, e em data centers com a EdgeConneX. A AES, por sua vez, tem participação na Fluence, fornecedora de sistemas de baterias.
| Grupo | Presença no Chile segundo a FNE | Negócio relevante |
|---|---|---|
| AES (AES Andes) | Geração solar, eólica, hidrelétrica, térmica e baterias | Geração e BESS |
| GIM (GIP, da BlackRock) | Atlas, Chile Renovables, Aligned Data Centers (Odata) | Renováveis e data centers |
| EQT | Urbaser (KDM Energía), Zelestra, EdgeConneX | Geração, construção e operação, data centers |
O ponto mais sensível eram os data centers. A FNE descartou que a operação permita uma “estratégia de bloqueio de insumos”, ou seja, que a AES Andes deixe de vender energia a data centers que concorrem com a Odata ou a EdgeConneX. Segundo o órgão, há pelo menos seis grupos empresariais independentes com geração renovável que podem abastecer esses clientes.

O que é a AES Andes no Chile: 4.079 MW e 756 MW em baterias
A AES Andes, antiga AES Gener, informou em agosto de 2026 capacidade instalada de 4.079 MW no Chile, com 756 MW de baterias, após a entrada em operação comercial do Bolero BESS, de 146 MW, em Antofagasta, segundo o Reporte Minero. A empresa tem outros 1.875 MW em construção.
| Tecnologia | Capacidade da AES Andes no Chile (agosto de 2026) |
|---|---|
| Solar | 1.009 MW |
| Térmica | 1.108 MW |
| Hidrelétrica | 771 MW |
| Baterias (BESS) | 756 MW |
| Eólica | 435 MW |
| Total | 4.079 MW |
| Em construção | 1.875 MW |
Esses 756 MW pesam num mercado de armazenamento que cresce rápido: o Chile superou os 3.000 MW de baterias este ano, como detalhamos na reportagem sobre os projetos BESS do país. Seu hub Andes Solar, em Antofagasta, é um dos maiores complexos de energia solar com armazenamento da América Latina.
O que muda para a AES Andes após a aprovação da FNE
No curto prazo, nada visível para os clientes. Em agosto, o CEO da AES Andes, Javier Dib, disse que a operação não mudaria os planos da companhia: “A estratégia da AES no Chile não muda. Pelo contrário, se reafirma”, segundo o Diario Financiero. Não há ajustes anunciados na filial chilena.
A aprovação chilena se soma à da Comissão Europeia, que autorizou a operação em meados de outubro pelo procedimento simplificado, e à dos acionistas da AES, que a aprovaram em junho. A compra ainda aguarda outras autorizações regulatórias, e o fechamento é esperado entre o fim de 2026 e o início de 2027.
A FNE também voltou sua atenção a outras partes do setor elétrico este ano, como as regras de conexão às redes de distribuição e as licitações do operador do sistema, que analisamos na reportagem sobre livre concorrência no setor elétrico.

Por que os fundos de infraestrutura compram elétricas como a AES
A compra da AES é uma das maiores operações do setor elétrico do ano. Os fundos de infraestrutura buscam ativos com receitas estáveis e de longo prazo, como os contratos de fornecimento de energia, e apostam no aumento da demanda elétrica por data centers e pela eletrificação. No Chile, a ministra de Energia, Ximena Rincón, citou projeções de 1.200 MW de demanda de data centers até 2030, frente a cerca de 325 MW atuais.
Para o sistema elétrico chileno, a troca de dono de uma de suas principais geradoras levanta perguntas sobre o ritmo de investimento em baterias e em novas usinas, e sobre os contratos com grandes clientes de mineração e indústria. Hoje há mais de 12.000 MW em projetos esperando conexão ao sistema, a maioria baterias, como contamos na reportagem sobre os projetos à espera de conexão. Por enquanto, a empresa afirma que seu plano de investimentos continua igual.
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Quem está comprando a AES?
Um consórcio liderado pela Global Infrastructure Partners (GIP), da BlackRock, e pelo fundo EQT Infrastructure VI, com o CalPERS e a Autoridade de Investimentos do Catar como coinvestidores.
Quanto vale a operação?
US$ 10,7 bilhões pelo patrimônio (US$ 15 por ação) e cerca de US$ 33,4 bilhões contando a dívida.
A FNE impôs condições?
Não. A aprovação foi sem condições: a FNE concluiu que a operação não reduz substancialmente a concorrência em geração, transmissão, baterias nem data centers.
Quanta capacidade a AES Andes tem no Chile?
4.079 MW em agosto de 2026, dos quais 756 MW em baterias, mais 1.875 MW em construção.


