Unir as redes elétricas da América Latina poderia gerar benefícios líquidos de US$ 1 bilhão a US$ 5 bilhões por ano até 2040, segundo o Plano Regional de Interconexão Elétrica da Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (Olacde). O estudo avaliou 16 interconexões candidatas e concluiu que 12 fazem parte do portfólio ótimo no cenário-base. Entre as mais valiosas está a que uniria Peru e Chile.
Os resultados foram apresentados na XI Semana da Energia da Olacde, em uma sessão dedicada aos avanços do plano rumo a 2040, segundo a Revista Electricidad, que publicou os detalhes em 22 de outubro. O plano é impulsionado pela Olacde, pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e pela Comissão Europeia, por meio do programa Euroclima, com implementação da agência alemã GIZ.
Os números da interconexão elétrica regional
O estudo não ficou em um único cenário. Testou cada interconexão em seis cenários que combinam diferentes níveis de demanda, preços de combustíveis, maior eletrificação e fenômenos climáticos como El Niño e La Niña, que mudam a disponibilidade de água para as hidrelétricas da região. Estes são seus principais resultados:
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Interconexões candidatas avaliadas | 16 |
| Cenários analisados | 6 |
| Interconexões no portfólio ótimo (cenário-base) | 12 |
| Interconexões valiosas em pelo menos um cenário | 16 de 16 |
| Benefício líquido anual até 2040 | US$ 1 bilhão a US$ 5 bilhões |
| Relação benefício-custo | 3,7 a 18,5 vezes, conforme o cenário |
| Horizonte do plano | 2040 |
Fonte: Plano Regional de Interconexão Elétrica da Olacde, apresentado na XI Semana da Energia, segundo a Revista Electricidad (22-10-2026) e o El Economista (12-10-2026). O benefício mais alto corresponde ao cenário de maior eletrificação regional.
Uma relação benefício-custo de 3,7 significa que, para cada dólar investido, o sistema economiza 3,7 dólares; no cenário mais favorável, 18,5. Os benefícios vêm de operar os sistemas de forma mais eficiente, compartilhando excedentes e reservas entre países, e de planejar melhor os investimentos em geração e armazenamento. Não são economias garantidas: dependem de acordos entre os países e da construção das obras.
Quanto custaria e quanta capacidade somaria
Quando a Olacde e a Celac apresentaram o plano em Montevidéu, em junho de 2026, foi informado um investimento inicial de cerca de US$ 3,5 bilhões até 2040, uma meta de 5.000 MW de interconexão ótima e um período de retorno de 2 a 6 anos, segundo o El Dinero (19 de junho). Outra cobertura dessa apresentação falou em cerca de US$ 3 bilhões, 5.835 MW e uns 4.830 km de linhas. Os números de investimento e capacidade variam conforme a fonte; os de benefícios, não.

Peru-Chile e Panamá-Colômbia, as interconexões mais valiosas
Segundo o estudo, as interconexões mais valiosas são as que unem sub-regiões inteiras. Panamá-Colômbia conectaria a América Central à região andina, e Peru-Chile uniria o sistema andino ao Cone Sul. Assim explicou Rodrigo Moreno, diretor de Engenharia Civil em Energia da Universidade Adolfo Ibáñez e do Centro de Energia Enlace, que apresentou os resultados.
Para o Chile, a conexão com o Peru já tem um primeiro passo concreto. A EnorChile Transmisión protocolou no Sistema de Avaliação de Impacto Ambiental uma linha de circuito duplo de 220 kV entre Arica e a fronteira, como detalhamos em a reportagem sobre a linha da EnorChile para interconectar Chile e Peru. É uma obra de 22 km e 250 MVA, muito menor que uma interconexão troncal, mas que permitiria intercâmbios entre Arica e Tacna.
A outra fronteira em discussão é a da Bolívia. Em outubro, os presidentes dos dois países assinaram uma declaração para avançar na integração energética e avaliar uma interconexão elétrica, como contamos em a reportagem sobre a declaração de Chile e Bolívia. O Chile já tem uma conexão com a Argentina, a linha Interandes de 345 kV, que liga Salta à subestação Andes, na Região de Antofagasta, e que tem sido usada de forma intermitente.
O que o Chile ganharia com a interconexão elétrica
O Chile tem um problema que a integração poderia aliviar: produz mais energia solar do que consegue aproveitar nas horas de sol. Em 2025, o corte (curtailment) de energia renovável chegou a 6.205 GWh, segundo a Deloitte, e em algumas semanas de 2026 o custo marginal no nó de Polpaico caiu para US$ 3,4 por MWh, o nível mais baixo desde 2002. Exportar esses excedentes do meio-dia aos países vizinhos e importar energia à noite é uma das lógicas por trás das interconexões.
Nos painéis da sessão, a uruguaia Arianna Spinelli afirmou que a integração reduz os custos de abastecimento, e Myriam Ferrán, da Comissão Europeia, defendeu planejar em conjunto geração, transmissão e interconexões. Álvaro González, da ISA Energía Chile, disse que o planejamento técnico e o regulatório devem avançar juntos, e citou três condições para esses projetos: confiança, governança e adaptabilidade.
A integração também toca nos preços. O Chile tem uma das eletricidades residenciais mais caras da região, como mostra o ranking do preço da eletricidade na América Latina, embora as diferenças de tarifas entre países reflitam sobretudo impostos, subsídios e custos de distribuição, e não apenas o custo de gerar.

Os obstáculos: acordos, regras e financiamento
O plano identifica onde vale a pena investir, mas não resolve quem paga nem com que regras a energia é trocada. Blas Rozada, do Fonplata (o fundo de desenvolvimento da Bacia do Prata), insistiu na viabilidade econômica e financeira, com uma divisão adequada de riscos entre os setores público e privado. O secretário-executivo da Olacde, Andrés Rebolledo, propôs iniciar a negociação de um Tratado de Integração Energética para a América Latina e o Caribe.
| Interconexão ou iniciativa | Países | Situação em outubro de 2026 |
|---|---|---|
| Corredor Peru-Chile | Peru e Chile | Destacado pelo plano da Olacde; linha Arica-fronteira da EnorChile em avaliação ambiental |
| Corredor Panamá-Colômbia | Panamá e Colômbia | Destacado pelo plano da Olacde como união da América Central com a região andina |
| Interconexão Chile-Bolívia | Chile e Bolívia | Declaração presidencial para avaliá-la (outubro de 2026) |
| Linha Interandes (345 kV) | Chile e Argentina | Existente, com uso intermitente |
Fonte: Olacde, Revista Electricidad, SEIA e reportagens anteriores da Energía Futura. A tabela resume só as interconexões mencionadas nesta reportagem; o plano completo avaliou 16.
A experiência regional mostra que a integração é possível, mas lenta. A usina de Itaipu, compartilhada por Brasil e Paraguai, é o exemplo mais citado de cooperação elétrica binacional, e a América Central tem há anos um mercado elétrico regional. Na América do Sul, por outro lado, a maioria das conexões existentes é bilateral e de capacidade limitada, o que explica por que um plano regional busca ordenar as prioridades até 2040.
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O que é o Plano Regional de Interconexão Elétrica?
Um estudo da Olacde, com a Celac, a Comissão Europeia (Euroclima) e a GIZ, que identifica quais interconexões elétricas entre países da América Latina vale a pena construir até 2040.
Quanto a região poderia ganhar com a interconexão elétrica?
Entre US$ 1 bilhão e US$ 5 bilhões por ano em benefícios líquidos até 2040, conforme o cenário, com relação benefício-custo de 3,7 a 18,5.
Por que a conexão Peru-Chile está entre as mais valiosas?
Porque uniria o sistema elétrico andino ao do Cone Sul. Segundo o estudo, as interconexões que unem sub-regiões inteiras são as que mais geram valor.
O Chile já está conectado a algum país?
Sim, à Argentina, pela linha Interandes de 345 kV. Com o Peru há uma linha em avaliação ambiental em Arica, e com a Bolívia, uma declaração presidencial para estudar uma interconexão.



